8.10.08

A Estética da Modernização

Robert Kurz
A cisão entre vida e arte é um antigo tema da modernidade. Todos os artistas que querem dar verdade à expressão - e que se desgastam existencialmente nas suas criações - acabam sempre sofrendo essa separação. Que ela exiba a beleza ou a estética do feio, que exerça a crítica radical ou busque a descoberta da riqueza de formas da natureza, que tenha orientação realista ou fantástica: a arte ficará sempre separada da sociedade por uma parede que pode ser de vidro transparente, mas é intransponível. Seus artefatos ou nunca foram observados antes ou então são mundialmente celebrados já desde o nascimento como objetos mortos e museológicos. O artista surge como uma figura da tragédia antiga: assim como a água e as frutas escapavam sempre de Tântalo, da mesma forma escapa-lhe a vida; assim como o Rei Midas tinha de ficar faminto, porque tudo se tornava ouro a seu toque, o artista também vive faminto como ser social, porque o seu toque transforma tudo em pura exposição. E como Sísifo, ele rola a sua pedra em vão – sua obra permanece sem mediação com o mundo.

2 comentários:

Bianca disse...

Creio que esta visão de arte museológica e distante daquele que a "contempla" não é aplicável a toda arte. Ainda que seja bastante interessante pensar que a mitificação em torno da obra de Da Vinci acabe se tornando a mesma de Duchamp, a partir do momento que os dois são considerados artistas consagrados que tem museus próprios e trabalhos que valem milhões.
Porém, desde a década de 60, há artistas que querem fazer da arte uma experiência para o espectador, que já fica confuso sobre a identidade artística daquele processo ser ou não válida,isso porque as propostas de alguns artistas contemporâneos permitem e geram uma interação tão grande com quem as vivencia (como quando Lygia Clark propõe "Caminhos" para o espectador, que nada mais é do que cada pessoa que se dispuser a cortar um papel, traçar uma rota deslizando a tesoura)que as questões autorais ficam em segundo plano. Diferentemente de Duchamp, que tem por conceito a abolição da importância autoral como movimento contrários a convenção de padrões clássicos, porém suas obras são inconfundíveis.
Já em artistas que fazem intervenções urbanas, como Carmela Gross, autora de letreiros luminosos que criticam a arte como produto mercadológico inseridos no contexto urbano como propagandas, a distinção entre arte e meio é menos visível.
A inserção da arte no espaço comum que não a presume ou na ação direta do espectador(que a esta altura não apenas assiste) não seria, de certo modo, um sutil derretimento do vidro que a cerca?

Felipe disse...

mesmo no simples cortar o papel da lygia clark e nas intervenções urbanas a arte está posta como a parte da sociedade. A experiência é artística em si, nada mais. o babado das esferas cindidas é certo...