30.10.11

A Universidade por Milton Santos


A Universidade: da internacionalidade à universalidade

Milton Santos

Discurso de aceitação do título de professor Honoris Causa na Universidade
Federal do Rio de Janeiro em 24 de setembro de 1999.


"Nos dias atuais, é praticamente comum, quase em toda parte, a perda
progressiva, pelas Universidades, da meta do conhecimento genuíno, o que
contribui para despojar a instituição universitária de sua principal razão
de ser.

Será essa uma evolução inelutável e irreversível? Talvez valha a pena, para
fixar as idéias, retraçar, ainda que brevemente, a história geral do
trabalho intelectual. Primeiro houve o sábio individual, aquele cujo
conhecimento era elaborado em comunhão integral com a Natureza total. Era
uma busca localizada, talvez inconsciente, de universalidade. O sábio
individual foi substituído pelas corporações de sábios, nas escolas e nos
conventos: o saber se tornava um atributo específico de um grupo, treinado
para exercê-lo. Chega-se, depois, com as Universidades, à figura do
"scholar", mistura de professor e pesquisador, pago pela sociedade como um
todo para "produzir" livremente o saber, isto é, codificar, do seu ponto de
vista, o saber coletivo, inventar individualmente, novos saberes, ou
simplesmente fabricar um conhecimento a ser transferido à comunidade como
educação. Mais recentemente, essa figura do "scholar"foi parcialmente
substituída pela dos "funcionários da educação", sem maior compromisso com
a pertinência dos temas.

Os sábios, as corporações de sábios, assim como a produção de um saber
desinteressado e verdadeiro acabam se tornando coisa rara, quando a
ciência, como serviço às coisas, matou a filosofia como serviço ao homem. O
sábio é substituído pelo erudito, o cientista pelo mero pesquisador, o
intelectual pelo profissional, se a grande preocupação não é mais o
encontro e o ensino da verdade, em todas as suas formas, mas uma atividade
parcelizada, dominada por um objetivo imediato ou orientada para um aspecto
redutor da realidade.

Em tais circunstâncias, a Universidade corre o risco de abandonar a busca
do saber abrangente, substituído pela tarefa de criação e de transmissão de
um saber prático. Este saber prático, elaborado fora da Universidade pelas
grandes firmas e dentro da Universidade por sua inspiração direta ou
indireta, é subordinado a objetivos externos à busca do conhecimento
verdadeiro. Daí o papel hoje determinante, das Fundações corporativas
internacionais, na produção e na circulação das idéias. Veja-se, também,
nas ciências sociais, o papel das redes, financiadas por convênios
internacionais, tanto mais exitosos, no geral, quanto menos relevantes são
os seus objetivos. A função desse pseudoconhecimento - fabricado sob
encomenda - é construir, sob o selo do cientificismo, um discurso
universitário cujo pecado de origem elimina a possibilidade de o associar à
noção de verdade científica.



De um modo mais ou menos geral, a Universidade aceita esse papel sem glória
de produzir um conhecimento comprometido, acorrentado ao que hoje se chama
"o prático", "o objetivo", "o pragmático", vocábulos que ganharam um novo
contexto para significar o que é capaz de dar maior lucro, seja como for.
Por isso, a universidade é chamada a realizar uma produção comercial do
saber, um conhecimento adredemente planejado como um valor de troca,
destinado desde a sua concepção (que é inspirada, cada vez menos, nas
Universidades e cada vez mais nas grandes firmas) a criação de um valor
mercantil. O conhecimento assim produzido é uma mercadoria sujeito à lei do
valor econômico.

É um mundo de cabeça para baixo que as Universidades estão ajudando a criar
e difundir, onde o meio passa ele mesmo a ser um fim. Quando a Universidade
se trasnforma em uma oficina do utilitarismo, ela é, ao mesmo tempo,
esterilizada e esterelizante. Torna-se um corpo morto e um corpo morto não
cria coisa alguma. O conhecimento produzido como meio de produção nasce
para morrer quando se torna funcional. É o saber do fazer coisas, um
processo finito, Ora, a busca do conhecimento é um processo infinito, o
processo de criação que é, ele mesmo recriador. O seu centro de interesse é
no homem e não nas coisas.

Quando a Universidade decide institucionalizar a primazia outorgada ao
estritamente técnico sobre o mais amplamente filosófico, entroniza o
instrumental e minimiza o teológico. Quando as ciências, quaisquer que
sejam, são tratadas como se não devessem ter uma filosofia própria,
integradora, os objetos são colocados acima do homem. A Universidade que
cria e difunde esse tipo de saber entre aspas perde seu conteúdo e sua
finalidade, e os professores e alunos vão fazendo coisas, mas não sabem
mais exatamente o que estão fazendo. Por isso, ao mesmo tempo em que as
disciplinas chamadas científicas afundam num imediatismo confrangedor ou
numa futurologia cega, as ciências sociais e humanas são subalternizadas,
reduzidas a um papel de justificação ou de codificação de uma interpretação
unilateral da sociedade.

Essas tendências gerais, hoje comuns a quase todas as Universidades, em
quase todos os países, são um resultado do fato de que o saber se
transformou numa força produtiva direta. Como ao mesmo tempo a economia se
internacionalizou. O saber-mercadoria tinha que acompanhar a tendência,
razão pela qual as universidades, por iniciativa própria ou por
contaminação, aceitam seguir essa mundialização unilateral. Adotando um
modelo externo às realidades nacionais ao serviço da produção das coisas,
elas se tornam medíocres, graças, também, ao desajustamento entre um saber
cada vez mais transferido e as realidades profundas das nações e graças à
contradição entre os meios, universalizados pelas necessidades produtivas
de caráter internacional, e os fins próprios a cada coletividade nacional,
minimizados estes por uma globalização perversa, comandada por uma economia
mundial perversa e uma informação internacional igualmente perversa.

Sob esse ponto de vista, a situação dos países do Terceiro Mundo é
dramática. Porque o saber já chega de fora incorporado nos objetos, na
tecnologia, no "management"e inclusive nos "scholars"importados, ainda que
haja exceções. Nessa situação, a produção de um saber nacional autêntico
torna-se assim dispensável. É exatamente por isso que as ciências sociais
deveriam voltar a ganhar dimensão, pelo fato de que são os esquemas sociais
de uso das técnicas e dos objetos que alicerçam o discurso de justificação
das novas dependências e desigualdades. O esforço dos países
subdesenvolvidos como o nosso deveria, pois, se orientar principalmente na
direção do estudo das suas próprias realidades sociais como um todo. Esse,
desgraçadamente, é também um domínio onde a imitação passou a ser uma regra
e a mania dos títulos (mestria, PhD, etc) substitui, nas universidades
burocratizadas, o saber genuíno.

A universidade internacionalizada "a priori" só serve a alguns, cada vez
menos numerosos. Porque não sendo universal também não é propriamente
Universidade.

Mas não seria justo concluir com uma nota pessimista. Com todos os seus
defeitos atuais, tão parecidos em quase todo o mundo, as Universidades
geram o veneno e o antídoto, mesmo se em doses diferentes. Lugar de um
saber vigiado e viciado, elas são, também e ainda, o único lugar onde o
contra-saber tem a possibilidade de nascer e às vezes prosperar. Isto pode
ser o resultado de esforços de cientistas pioneiros, agrupados ou não. Mas
para guardar e manter o pensamento independente e indispensável que a
instituição universitária aceite desinstitucionalizar-se, caminho único
para evitar que o excesso de regras e de mandos acabe por esterilizar as
suas possibilidades de um trabalho realmente livre, voltado para o
interesse geral.

A tarefa de incorporar a Universidade num projeto social e nacional impõe
primeiro a criação e depois a difusão de um saber orientado para os
interesses do maior número e para o homem universal. Não há contradição
entre nacionalidades e universalidades, entre as busca do nacional popular
e o encontro com o universal. Devemos estar sempre lembrados de que o
internacional não é o universal. O trabalho universitário não é
propriamente uma tarefa internacional, mas precipuamente nacional e
universal, dependendo, desde a concepção à realização efetiva, da crença no
homem como valor supremo e da existência de um projeto nacional livremente
aceito e claramente expresso. É a tarefa que nos aguarda."


Um comentário:

Jonas Henrique disse...

Não é a toa que Milton Santos é o cara quando se fala em Geografia. Visionário, acredito que é pouco, para este personagem geográfico que tem capacidade de mostrar tão claramente os problemas nas universidades acarretados pelo avassalador "poder mercantilizador" do intelecto do ser humano, apontando maneiras e vendo alternativas para resolução desse grave problema.